Redes sociais ajudam avós a fortalecer relação com os netos

É na calmaria da cidade de Tapiramutá que mora a funcionária pública aposentada Edelvira Amaral. Mãe de 6 filhos, a idosa de 75 anos tem uma família grande, com 17 netos, 9 bisnetos e uma tataraneta. Separada dos familiares por uma distância de mais de 360 km, a idosa não irá passar o Dia dos Avós nesta quinta-feira 26, com os seus netos de Salvador. Porém, graças ao uso de redes sociais como o Whatsapp, “Dona Bibi” irá receber muito carinho da toda família.

Até agora, ela só é ativa no Whatsapp. Um dos filhos ensinou à ela. Mas o aplicativo sozinho já é suficiente para que as mensagens não parem de chegar. “Uso o “zap” todo dia para ver vídeos e conversar com a família e amigos. Já aprendi muita coisa pelo celular e quero continuar buscando. Acho que a tecnologia facilitou muito o contato, pois antes do aplicativo, eu não conversava na mesma frequência com o pessoal”, conta. No entanto, Dona Bibi tem uma única regra. “Quando as minhas novelas começam, eu não quero saber de ninguém me ligando ou mandando mensagem, fora isso, pode falar a vontade”, declarou aos risos.

“Dona Bibi” gosta de usar o Whatsapp para conversar com a família e ver os vídeos

De acordo com uma pesquisa do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação, o número de pessoas com mais de 60 anos que usa a internet cresceu consideravelmente, passando de 8 para 19% entre os anos de 2012 e 2016.

Usar o computador e o celular para se comunicar faz parte da rotina da secretária parlamentar Marlene Croda, de 65 anos. Todas as manhãs, ela se conecta ao Facebook e Instagram para poder falar com a família. É dessa forma que conversa diariamente com o filho Julio Croda, pesquisador da Fundação Fiocruz que mora no estado do Mato Grosso do Sul. Mesmo longe, as redes sociais ajudaram Marlene a estar presente em um dos momentos mais importantes da vida do filho.

“Através do Facebook, consegui assistir ao vivo uma palestra que meu filho estava dando em Amsterdã. Eu daqui de Salvador, e ele de lá, transmitindo. Foi uma grande emoção poder acompanhar em tempo real uma ocasião tão especial como essa. Isso é algo que há 40 anos, eu não poderia nem imaginar que fosse possível”. afirmou.

 

Marlene usa celular e computador para se conectar aos filhos e netos todos os dias
Autora de diversos trabalhos com idosos, a enfermeira e professora da Universidade Federal da Bahia, Adriana Valéria da Silva Freitas, acredita que a conexão traz diversos benefícios para os vovôs. “As pessoas idosas têm vontade de aprender coisas novas e a internet é um bom espaço para isso. Além disso, ela pode ajudar a motivação da autoestima, o estímulo cognitivo e o da memória, favorecendo assim, a manutenção da independência e autonomia, aspectos importantes para o envelhecimento saudável”, afirma.

Independência e autonomia são palavras que a costureira Hilza Ribeiro conhece bem. Aos 65 anos, a aposentada mora sozinha no distrito de Acupe em Santo Amaro da Purificação (a 98,5 km de Salvador). Com sete filhos, oito netos e três bisnetos, “Bireca”, como é conhecida, também usa Facebook e o Whatsapp para falar com a família. Além disso, é por meio das redes que ela acompanha e compartilha as notícias que encontra. “Sempre digo que o “zap” também é cultura. Eu gosto de olhar as histórias, e quando fico sabendo de alguma notícia, já vou informando todo mundo”, comenta.

Neta de Dona Bireca, a estudante de Fonoaudiologia, Luana Ribeiro, acha ótima a conexão da avó e diz que isso ajuda a aproximar a relação, já que antes dela passar a usar as redes, as conversas só aconteciam durante as viagens à Acupe ou por meio de ligação. “Ela fica sabendo de todas as novidades no grupo da família pelo Whatsapp e acompanha todas as fotos pelo Facebook. Acredito que seja importante para que mesmo morando sozinha e longe de nós, ela se sinta por dentro do que está acontecendo com os seus familiares e de uma forma bem rápida”, diz.

“Dona Bireca” gostar de contar as histórias que vê no Whatsapp e Facebook para os netos

Difícil para quem?

Para Adriana, apesar das tecnologias estarem cada vez mais democráticas, ainda falta ampliar e facilitar o acesso. “As ferramentas digitais devem se adequar às pessoas idosas e suas peculiaridades relativas ao processo fisiológico do envelhecimento, como por exemplo, a diminuição de acuidade visual. A tecnologia também precisa chegar a outros espaços como as Instituições de Longa Permanência e os Centros de convivência, afinal, se bem administrada, pode ser um excelente ferramenta para o cuidado ao idoso”, reitera.

Luana conta que o uso das redes pela avó não foi fácil. “No Facebook, ela postava no mural das pessoas com quem ela queria conversar, como se estivesse falando inbox. Foi então que a gente explicou que as pessoas não conversavam no mural, pois ali todos podiam ver. Pelo WhatsApp ela só mandava áudios, já que soltava o microfone no meio. Até hoje, ela manda áudio como se estivesse numa ligação, pois fala e espera a pessoa responder enquanto ainda está gravando”, explica aos risos.

A dificuldade também pegou Dona Bibi, que afirma querer aprender a usar outras redes além do Whatsapp e reclama da estrutura do aparelho. “Ainda não sei mexer no “Face” e no “Insta”, mas tenho vontade de aprender. Estou só esperando algum dos filhos ter tempo para me ensinar. Uma coisa que não gosto é do tamanho das letras e do teclado, que às vezes dificultam minha vida”, lamenta.

Marlene também confessou que de vez em quando pede ajuda aos filhos e netos para poder acessar. “Na idade da gente, acabamos precisando pedir “ajuda aos universitários”, mas apesar de ter alguma dificuldade, a gente chega lá”, fala.

Amar é proteger

Compartilhar histórias e informações com a família já faz parte do uso das redes pelos avós. No entanto, apesar dos benefícios, a especialista diz que é importante tomar alguns cuidados. “Muitos idosos acabam sendo vítimas de golpes. Isso acaba provocando insegurança”. A pesquisadora aconselha a família a acompanhar o uso. “Não é para vigiar, mas enxergar um um assunto que possa unir as gerações para explorarem juntos esta tecnologia. Os netos são excelentes para isso, já que crianças e adolescentes lidam muito bem com as redes. Podem ser excelentes “professores”, diz.
Fonte – A Tarde

Jorge