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sex , 24/11/2017 às 11:59

Coragem para vencer : Angélica Bittencourt fala sobre racismo, educação e política

Vivencio o racismo quase todos os dias.” Foram com essas palavras que a professora Angélica Bittencourt respondeu a nossa reportagem sobre a presença da discriminação racial no Brasil. Em uma conversa descontraída, em sua casa, na praia de Jauá, Angélica se colocou em relação a diversos assuntos.

 

 

A entrevista durou cerca de 1h30, tempo suficiente para Angélica se emocionar, ao reproduzir episódios difíceis já enfrentados. O bate papo rendeu. A professora tocou em feridas abertas sobre o racismo no país e, a base de reflexões, foram sua própria vida: dos tempos em que ainda era criança, à experiência de iniciar a vida profissional na área da limpeza, passar para sala de aula e se tornar uma importante empresária do setor da educação.

 

Educação, mulher, política. Passeamos por todos esses setores. Ao final, a principal mensagem transmitida: “educação é motor de qualquer mudança”.

 

Com um vasto curriculo que abrange letras, pedagogia, contabilidade e administração, Angélica Bittencourt, 48 anos, casada e mãe de três filhos, é uma das principais referências na área de educação privada em Camaçari. À frente do Centro Educacional Bittencourt (Menino Jesus), ela administra uma estrutura polpuda com cerca de 1.500 alunos, divididos em duas unidades, uma no Centro de Camaçari (Gleba B) e outra em Vila de Abrantes. Empreendedora arrojada, Angélica inaugura, no próximo ano, uma unidade em Dias D’Ávila, com estrutura que promete superar, inclusive, a própria sede. Confira entrevista.

 

 

Nossa Metrópole – Hoje, você é uma empresária bem sucedida na cidade, uma pessoa estabilizada financeiramente, mas no início, não deve ter sido fácil. É possível entrar em sua intimidade e resgatar sua história?

Angélica Bittencourt – Claro (risos). Sou de origem humilde e garanto que os desafios que enfrentei não foram poucos, mas eles ajudaram no meu crescimento.
Estudei num tempo em que a educação era considerada primordial e, talvez por isso, logo cedo comecei a trabalhar, aos 15 anos de idade, dando banca. Uma alternativa encontrada para ganhar um dinheiro e contribuir com minha família. Antes disso, cuidei de três primos, ainda muito menina, com 12 anos.

 

NM – Fala mais um pouco sobre essa história.

AB – Meus tios moravam em Camaçari e eu com minha família no interior de São Sebastião do Passé. Na época, eles não tinham condições de pagar alguém para cuidar dos meninos e, então, minha mãe me cedeu para ajudar, mesmo sendo a filha mais nova. Fiquei com eles um tempo e logo meus pais também vieram morar em Camaçari.

As coisas estavam muito difíceis. Meu pai era caminhoneiro, mas passava por dificuldade com clientes, daí precisávamos nos virar. Um irmão vendia manga na porta de casa, outra farinha na feira e eu dava aula às crianças da vizinhança. Eu amava e me realizava a cada aula.

NM – Logo se percebe que seu espírito empreendedor nasceu cedo, foi da banca que surgiu o CEB?

AB – Sim. O nome da minha banca já era Menino Jesus, mas antes do CEB trabalhei como servente de limpeza em uma grande escola particular de Camaçari, depois iniciei como professora em outra escola, da qual fui sócia.

No primeiro momento, tive como pagamento uma mesa e algumas cadeiras. Na segunda escola, fiquei com um débito de um pai que me gerou um terreno. Assim começou minha história com o CEB.

Trabalhei muito. Carreguei saco de cimento, fiz limpeza, transporte, cozinhei. Vivi muitos anos em sala de aula e, ao mesmo tempo, exercendo múltiplas tarefas, pois tinha o objetivo de crescer na vida. Enfrentei e ainda enfrento preconceito racial, mas isso nunca me abalou, muito pelo contrário, foi mais um combustível para minha vontade de vencer.

NM – Você falou em racismo. Passou por situações constrangedoras por causa da cor da pele?

AB – Claro. O preconceito racial fez e faz parte da minha vida até hoje. Percebo o ar de surpresa de muitas pessoas quando conhecem Angélica Bittencourt e se deparam com uma mulher negra.

Vários pais e, inclusive, fornecedores já deixaram nítido que não esperavam ver uma negra à frente de uma escola como o CEB.
Em certa vez, um fornecedor, chegou a ser inconveniente ao ponto de dizer “ essa senhora pode ser até a diretora da escola, mas não a proprietária” e se voltar a minha funcionária que possui a pele clara. Enfim, a gente percebe o preconceito todos os dias e em vários ambientes. É triste, mas essa ainda é a realidade do Brasil.

NM – Vamos falar um pouco sobre educação. Sabemos que esse é um dos principais gargalos do Brasil e Camaçari enfrenta diversas crises nesse sentido. É possível construir um sistema de educação pública de qualidade? O que é preciso fazer?

AB – Gestão. É necessário ter interesse de mudar, se administrar com firmeza e competência. Eu tenho um programa no qual a cada turma insiro gratuitamente cinco alunos da rede pública no CEB. Vejo crianças chegando ao quinto ano sem saber ler e escrever, uma realidade problemática vivenciada em nosso país.

Infelizmente, nossas escolas públicas, em sua maioria, são mal gerenciadas. Há falha na fiscalização e não há um acompanhamento eficaz na qualidade do ensino. Falta segurança, merenda, estrutura física, material, professor e, quando se tem, eles estão desmotivados.

O professor é a base de tudo, mas não existe o devido respeito pela profissão. Com isso, ele é obrigado a trabalhar três turnos. Como exigir qualidade? É assim também com a classe policial que coloca sua vida em risco pela sociedade, mas é preciso fazer vários bicos para complementar a renda, pois o piso não é suficiente para sustentar uma casa. Vejo que tudo está de cabeça para baixo e que sérias atitudes precisam ser tomadas de modo emergencial.

 

NM – Então, dizer que o preconceito racial acabou é mito?

AB – Com certeza. O preconceito é muito mais sentido do que falado, mas, infelizmente, ainda é muito presente em nossa sociedade. Acredito que esse cenário só mude quando as pessoas aprenderem a ter amor e tratar o próprio com igualdade. Só o amor pode transformar.

NM – A gente percebe muita verdade em sua fala e um desejo de transformação enorme. Entraria na política?

AB – Como cidadã, eu costumo fazer a minha parte e dar uma parcela de participação no que se é possível fazer para transformar vidas. No entanto, sabemos que só por meio da política é possível fazer um trabalho sustentável de transformação social. Eu costumo dizer que se esse for o meu chamado, se for da vontade de Deus, por que não? Seria mais um desafio.

Vejo a educação como a mola propulsora de toda sociedade e, inclusive, da política. Precisamos nos educar e votar com responsabilidade e não por troca de favorecimentos. Os políticos precisam se educar a de fato trabalhar pelo povo e gerir para o povo. O que falta é interesse de mudar, de deixar os benefícios pessoais de lado e se fazer a política com a devida seriedade. É uma vergonha o nosso atual cenário, mas sem educação nada muda.

NM – O fato de ser mulher, pode ser mais um desafio a ser enfrentado, caso decida seguir uma carreira política?

AB – Essa é uma situação muito parecida com a do preconceito racial. Muitas vezes não se fala, mas a gente percebe o quanto o machismo ainda é presente no Brasil e vivemos isso na pele diariamente.

Há preconceito, com certeza. É só pegarmos como exemplo a Assembleia Legislativa da Bahia e vemos que temos apenas 7 mulheres. Contudo, a arena política, aos poucos, tem sido conquistada pelas mulheres.

Esse também é um processo de educação, inclusive, para que as próprias mulheres votem em mulher, mas eu acredito que a mulher está cansada de viver à margem da sociedade e que vai buscar o seu espaço na política também.

Por : Fabiana Monte

Fotos: Edson Fotografia

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